segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Música, teatro, circo, poesia: mistura que faz O Teatro Mágico um grande espetáculo





Música, teatro, circo, poesia:
mistura que faz O Teatro Mágico um grande espetáculo

Rodrigo Gutuzo

É música, é circo; É poesia e é teatro. É tudo isso e muito mais. É assim que a trupe “O Teatro Mágico” vem conquistando cada vez mais fãs por todo o Brasil.

A trupe, comandada por Fernando Anitelli, lança seu terceiro álbum com mais “maturidade”, segundo o próprio compositor, após os sucessos de “Entrada para Raros” e “O Segundo Ato”. Anitelli falou com o Jornal União, contando um pouco do trabalho do Teatro Mágico, a
proximidade com os fãs via redes sociais, influências artísticas, o Movimento Música Para Baixar, entre outros assuntos. Um bate-papo rico em cultura e poesia. Como é a essência do Teatro Mágico.

Jornal União: Como surgiu a ideia de criar o “O Teatro Mágico”?
Fernando Anitelli: Foi com a ideia de traduzir as coisas que aconteciam dentro de um sarau. Justamente misturar vários tipos de expressão artística. No sarau, acontece uma poesia, uma música, alguém faz uma mímica, o cara conta uma piada, outro fica em silêncio. Então, por que
não levar isso para um plano maior e fazer em um contexto de espetáculo de apresentação musical, teatral. Vamos usar todas estas peças. E foi isso que fiz. Chamei alguns amigos, tinha algumas músicas. Montei isso tudo, montei as 19 faixas e pensei: como vou traduzir isto aqui ao vivo? Eu já fazia oficina de teatro, coisas assim. Aprontei assim uma lógica para aquilo, um encontro. A ideia era que fosse uma celebração. O Teatro Mágico teriam as músicas e, para o
primeiro show, tivemos uns 40 convidados, uns 20 amigos no palco, 20 músicos, gente tocando violão, guitarra, veio baterista... Lógico que aquilo não poderia ter continuidade se não achássemos um jeito de organizar, estruturar, otimizar. Então, isso que foi acontecendo naturalmente.

JU: Como você vê o trabalho do Teatro Mágico hoje?

Anitelli: Um projeto que traz um debate sobre a cultura livre, em relação ao direito autoral, a democracia na comunicação, ao compartilhamento de conteúdos. Tem toda essa questão de software livre, em relação à maneira que a gente trabalha, nas redes sociais. A ideia num âmbito político, porque é um projeto que traz um direcionamento, uma posição, em relação a várias coisas. Esse novo álbum, por exemplo, ele chama “O Teatro Mágico: A Sociedade do Espetáculo”. Ele fala sobre feminismo, movimento social rural, justamente o movimento sem-terra, fala sobre a questão da revolução no Egito, fala sobre o próprio direito autoral, que nossa ministra da Cultura tinha uma posição equivocada até em certos pontos. Enfim, é um projeto que faz com que não seja apenas uma coisa musical. Claro, ele é essencialmente musical, mas ele tem essas interferências todas, que nos possibilitam interpretá-las e traduzi-las das mais variadas formas possíveis, que é dança, teatro, circo, brincadeiras. Hoje, está dentro deste contexto, com uma banda com interferências de teatro e
circo, onde eu fico também como um bufão irônico, improvisando entre o teatro e a música. Um
show que, na verdade, tem participação do público, onde é a galera que faz o peso, a presença ali. Não tem fã o Teatro Mágico. Existe é a extensão da trupe. A galera vem com toda essa gana e isso que a gente mais gosta de fazer: poder aprender junto, poder construir alguma coisa possível.

JU: É uma maneira de agregar valores culturais “esquecidos”, como teatro e circo, ao mundo jovem hoje?


Anitelli: O jovem hoje tem infinitas possibilidades de informação. Ele tem acesso a um milhão de coisas que a gente nunca teve antes na vida. Ele pega o celular de “100 cruzeiros” que ele ganhou do pai, aperta umas teclinhas e aparece música, filme, vídeo, texto, biblioteca, mulher pelada, poesia, a cópia da prova, a foto da colega. Então, como você se coloca dentro deste contexto? Na verdade, eles têm acesso a teatro, vídeo, tecnologias - outras também. E o circo, ele até está muito mais reconhecido hoje do que anos atrás, onde ele era muito mais tratado como uma coisa cigana. Ainda falta muito. Ainda não existe uma legislação para o circense. Falta uma porção de cuidados, uma política cultural voltada para isso, pro teatro também. Não que está se perdendo. Eles estão acontecendo. Mas não existem olhos para eles. Não existe um olhar de cuidado para essa galera. Tem muita gente fazendo coisa legal de circo, de música, de dança, só que não aparece, a mídia não mostra. Falta um fomento para isso, para ter sobrevida. São
pessoas exponenciais, acontecem e desaparecem.

JU: Vocês sempre trabalharam de forma independente da “grande mídia”, das grandes gravadoras – e não faltaram boas propostas. É um pensamento de vocês? Por que isso?

Anitelli: A gente sempre quis projetar o nosso trabalho com autonomia, mas projetar de uma maneira comum com as pessoas. Como assim: eu vou fazer parte de uma gravadora, de uma empresa, e quem eu sou dentro dessa cadeira produtiva da música? A gente tem que entender isso. Como funciona? Você não escreve uma música, ensaia, e aí vai no Faustão ou no Luciano Huck. Pode até ir, não tem problema. Mas a gente não pode imaginar que o fato de simplesmente ir lá faz de você um cara super-famoso, que vai ter uma sobrevida na sua carreira. Isso pode te ajudar muito. Mas, você pegar um grupo e tocar as mesmas músicas em Recife, em Curitiba, Cambé, Londrina, Maringá, e conseguir dialogar esse projeto com os mais variados públicos, isso é fantástico. Dentro desse contexto, é importante a maneira com a qual a gente realiza isso, porque a gente consegue ter autonomia. A gente sempre quis projetar as coisas com gravadoras, mas sempre teve empecilhos. Por exemplo, nossa música pode ser livre? A gente pode doar a nossa música no site, de maneira gratuita? “Ah, não pode...” E a gente fala: crescemos assim, a gente tem esse contexto, essa ideia. Não vamos deixar de fazer uma coisa assim. Nosso CD pode custar cinco, dez reais? Enfim, existem vários equívocos. As gravadoras têm que pensar com um
olhar sobre o que está acontecendo agora, sobre o nosso contemporâneo. Elas ficam muito presas em um monte de coisa, e esqueceram que a tecnologia cada vez mais aumentou. E é verdade: você pega o celular, digita e aparece a música que você quiser aqui. Então, não tem como evitar, porque tudo que é digitalizado hoje, essa informação tem que ser acessível. É democratizar a informação. Nós temos que descobrir outras formas de fazer economia, de fazer grana, com seu trabalho de ser músico. Então, fazer parceria com gravadoras eu não vejo problema, desde que tenha um senso comum. Vamos tentar assim, música livre, um CD mais acessível para galera. Se tiver esse pensamento, por que não? Forças que podem colaborar, e se a gente está pensando na mesma coisa junto, legal, comum, bacana, vamos fazer. Mas não houve isso, em nenhum momento. E, não nos interessa na verdade a questão do “cifrão”. É do que se trata, do por que e para que.

JU: O que interferiu foi o Movimento Música Para Baixar, criado por vocês?

Anitelli: A gente tem esse Movimento Música Para Baixar – Movimento MPB. Para que todos tenham acesso às músicas. Por exemplo, se cada cidade tivesse um mapeamento dos artistas locais, fomentássemos nas escolas festivais, junto com a secretaria de Cultura, Prefeitura. Se tivéssemos um quiosque nos shoppings, com a música de todos os músicos da região. O cara vai lá, “espeta” um pendrive, baixa as músicas. Sabe, conhecer quem está fazendo música, o que está acontecendo. E tudo isso é possível. Se tivéssemos esse olhar, esse cuidado, teríamos muito mais acesso as informações. Isso é uma coisa que a gente acredita, defende, que tem a ver com o software livre, a questão de poder trabalhar, gerar e gerir sua obra. É a economia da cultura livre. Não é que você está doando sua música e perdendo grana. É uma outra relação, as pessoas passam a existir. Antes, qualquer músico para poder existir tinha que ou tocar no rádio ou aparecer na televisão, se não ia tocar num bar ou coisa assim. Hoje, existe uma outra ferramenta que democratiza a comunicação, que é a internet. Você consegue através da internet reger sua própria obra, o teu trabalho. É o que está acontecendo com a gente e outras várias pessoas. Então, vamos cuidar disso, vamos apoiar isso. E várias gravadoras não estão interessadas nisso.

JU: As redes sociais foram o grande meio utilizado para divulgação do Teatro Mágico. Até fizeram a composição de uma música pelo twitter. Existem outros projetos através das redes
sociais e como você vê esse trabalho hoje?

Anitelli: Essencial, fundamental, emergencial, gigante. É um aprendizado constante. É infinito. Poderoso, responsável. Corajoso, porque quando você está produzindo um conteúdo para um número de pessoas e aquilo tem uma relevância exponencial dentro da rede, porque a gente tem vários rizomas, um monte de ligações, um monte de informações, coisa ao mesmo tempo... Quando você consegue dialogar, você tira o atravessador cultural, você fica frente a frente com o público, e o público constrói, elabora com você, em tudo que é o mais necessário, que é a sobrevida do seu projeto. Então, as redes sociais felizmente vieram mostrar o quão necessário é o diálogo, a comunicação, a liberdade na comunicação. Por isso que existe a lei do “AI-5 digital”, do (senador) Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Ele quer criar uma “lei do vigilantismo”, onde você deixa seu RG para que os provedores digam para a polícia o que estou baixando. Se estou baixando música livre, o cara vai achar que isso é crime? Porque muita gente acha que baixar música é crime. Até alguns anos atrás, nós trocávamos fita K7, escrita assim: “lentas”, onde tinha Phil Collins, Beatles. E a fita K7 virou CD, passou a gravar mais música, e o CD virou algo digital, do celular você aperta o botão e, isso vem junto de brinquedo, joguinho... Cada vez mais a gente percebe como é importante a comunicação. O que a gente faz hoje é dialogar com nosso público, com movimentos, ideias, que a gente acredita fazer sentido, pelo caminho do nosso trabalho que é a música. Mas não só isso. Faz todo um debate em relação
a isso, ao contexto da música no país, no nosso meio.

JU: Este terceiro álbum, “A Sociedade do Espetáculo” traz isso, essa maior proximidade do público?

Anitelli: Sim. É o álbum mais colaborativo. Tem música escrita com twiteiras e twiteiros, que se chama “O que se perde enquanto os olhos piscam”. Tem música feita em parceria com o Danilo Souza, com a Nô Stopa, com o Gustavo Anitelli, com o Daniel Santiago, com o poeta Sérgio Vaz, regravei uma música de um cara chamado Pedro Munhoz, lá do Rio Grande do Sul, um trovador fantástico e muito ligado ao Movimento Sem-Terra, que tem umas canções heróicas. Tem parceria com o Leoni (Fernando canta, nesta parte da entrevista, um trecho de “Garotos”, de autoria de Leoni), tem participação do saxofonista do Dave Matheus Band. Uma porção de gente bacana, sensível. Mostra muito uma pluralidade sonora e ao mesmo tempo tem a essência do Teatro Mágico. Mas, sem dúvida alguma, é o trabalho mais maduro sonoricamente, acredito eu, que o Teatro Mágico já fez. Não que o resto do trabalho não seja algo maduro, mas é como eu me sinto agora. Sabe quando você diz “pô, ‘tô’ jogando bem futebol, fiz sete gols em três jogos...” É essa sensação, de que as coisas estão fluindo, no caminho certo. O resultado que a gente vê dentro do que propomos como um conceito de economia solidaria, cultura livre e acesso a informação através da música e do entretenimento, é uma coisa que eu acho muito
responsável.

JU: Seria o álbum mais “social”, até pelo nome “A Sociedade do Espetáculo” então?

Anitelli: O primeiro álbum era o “O Teatro Mágico: Entrada para Raros”, algo mais lúdico, mais saltimbanco. “O Teatro Mágico: O Segundo ato” era algo mais denso, mais politizado, mais critico, mas cor-pastel. E “O Teatro Mágico: A Sociedade do Espetáculo” é uma mescla dessas duas coisas. Tem um pouco de simpleza, de singeleza, mas tem o feminismo, o meio ambiente, é uma música que saiu da terra. Tem mistura de Maculelê com funk carioca, tem rock, tem batida de música africana com rock europeu, um folk, violãozão. Tem a participação de um cara chamado Daniel Santiago, produzindo o álbum. É um cara que já trabalhou com Hamilton de Holanda, já concorreu a Grammy. Esse é o caminhar que a gente está. E a “A Sociedade do Espetáculo” traduz um pouco isso no sentido das relações midiáticas, de quem é o espetáculo, quem produz o espetáculo. Todos somos parte da Sociedade do Espetáculo, todos nós somos essa máquina que gera isso. Qual que é a nossa força ao ver tudo isso: quem somos nós dentro das cadeias produtivas que eu participo. Trabalho com música: então, qual minha parte aqui dentro? Como eu componho isso? Como posso melhorar nas dificuldades? Enfim, “A Sociedade do Espetáculo” tem sim essa ideia de traduzir essa coisa plural, nacional-mundial urbana, as relações humanas. A Sociedade do Espetáculo é isso.

JU: Tem inspiração no livro “A Sociedade do Espetáculo”?

Anitelli: Não é a tentativa de traduzir o livro do Guy Debord. O livro, lógico, é uma inspiração, uma referência, eu quero ler. A minha relação com a literatura dele é pouca. Toda vez que eu li o livro, eu ia e voltava, e sempre me instigou. Eu sempre gostei desse nome. Eu já tinha inventado faz 10 anos. Há 10 anos, eu já tinha pensado nos três nomes.

JU: Então, realmente é parte de uma trilogia?

Anitelli: É. “Entrada para Raros”, “O Segundo Ato” e “A Sociedade do Espetáculo”. E, de fato, consegui realizar. Quer dizer, vou realizar agora. Então, a ideia é isso. Gravar essa trilogia no primeiro momento, aí eu quero dar uma pausa, trabalhar em um projeto infantil, com música infantil, com teatro, arte, e outras coisas. Quero trabalhar meu projeto solo chamado “As Claves da Gaveta”, que é um trio e já lancei o álbum este ano, em abril, e já fizemos algumas apresentações. Depois, eu volto com uma nova trilogia, igual o George Lucas fez com o “Guerra nas Estrelas”. Só porque ele é de lá e eu sou de Osasco, eu não posso fazer igual? Então eu faço uma trilogia e depois volto e faço outra. (risos) Faço quantas precisar.

JU: Quais são suas inspirações em composição?

Anitelli: Tem Tom Zé, Raul Seixas, Legião Urbana, Simon e Garfunkel, Secos e Molhados, Zeca Balero, Nação Zumbi, Radiohead, Hamilton de Holanda, Antônio Nóbrega, Cordel do Fogo Encantado, música africana, rock britânico. Na verdade, isso da minha cabeça. Aí tem o violinista, o Galdino, que é um baiano que toca violino. Você imagina o que dá? Baiano, de cabelo com dreads e tocando violino. Quem for ao show, vai ver o que vai acontecer, conhecer essa figura. Mas, quanto a referencias, imagina só, misturando as minhas com as deles. Porém, o que eu mais tenho certeza que eu não faço nada do zero. Nada é só meu. O que eu faço são recombinações.

JU: Você usa sempre uma frase sobre o tema...

Anitelli: Eu digo que o artista que não se recicla, vira cover de si mesmo. E tudo que eu faço ou é ouvindo aquela música, aí eu quero tocar igual aquele cara, e faço um pouco diferente. Então são recombinações. Não vim do zero, compositor do nada. Tem referência de tudo um pouco. Do meu irmão, do meu pai que dá opinião, dos arranjos do Galdino. O Teatro Mágico tem essa essência.

JU: Você trabalha muito com poesia, e as canções do Teatro Mágico são ricas nisso. Você considera que a música faz a poesia chegar onde apenas a letra não alcança?

Anitelli: (Breve silêncio, pensativo) Olha, sem dúvida alguma, a música se propaga no ar. Tal qual é palavra, mas a música preenche espaço com substância. Ela é capaz de coisas absurdas. Assim como a palavra. Na verdade, quem chegar primeiro, a boa palavra ou a boa música, fará efeito. Então, a música ajuda. Eu sempre senti assim. Em tudo que eu escrevo, em tudo que a gente vai falar, duas horas no microfone, tem que ter, no fim do texto, aquela “moral da história”. Não dá para ser aleatório. Então, a busca pela poesia, pelo conceito de rima, pela estética, pelo risco, é algo que acho bem legal. E ao mesmo tempo assim: poxa, O Teatro Mágico já existe, eu tento manter minha essência porque o pessoal gosta de mim porque eu sou assim, mas ao mesmo tempo eu tenho que mudar, se eu não mudar, não consigo trazer novidade. Às vezes é isso. A poesia precisa ser tão densa quanto à música. Ela precisa ter a mesma preocupação de estética, de força. É assim que eu busco juntar, mesclar, pra fazer poesia e música no Teatro Mágico.

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